Os lagartos marinhos do passado

Reconstrução em vida de Taniwhasaurus antarcticus, um exemplo da aparência típica de um mosassauro, em exibição no Museu Argentino de Ciências Naturais, em Buenos Aires.



Pesquisa revela que mosassauros tiveram aumento de diversidade até sua súbita extinção.


Se fosse possível voltar no tempo milhões de anos, os animais e as plantas que encontraríamos povoando o nosso planeta seriam muito diferentes dos que estamos acostumados a ver hoje em dia.

Isso não apenas na terra, mas também no mar, que abrigava, ao lado dos peixes, diversos grupos de répteis marinhos.

Um desses grupos se tornou o principal predador dos oceanos, sobretudo durante a parte superior do período Cretáceo: os mosassauros.

Também conhecidos como lagartos marinhos, esses répteis dominavam os ambientes costeiros, particularmente entre 85 e 65 milhões de anos atrás, tendo sido encontrados em depósitos da Europa, Ásia, América do Sul, América do Norte, África, Japão, Nova Zelândia e até mesmo Antártica.



Réplica do crânio de Taniwhasaurus antarcticus em exposição no Museu Argentino de Ciências Naturais, em Buenos Aires.


Apesar de, à primeira vista, a aparência geral dos mosassauros não variar muito (com exceção do seu tamanho), pesquisadores observaram uma grande diversidade na morfologia dos dentes de diversas espécies, o que indica hábitos alimentares distintos.

Marcus Ross, paleontólogo da Universidade Liberty de Lynchburg, na Virgínia (Estados Unidos), acaba de publicar um estudo no Journal of Vertebrate Paleontology em que demonstra que, a partir de sua origem, os mosassauros se diversificaram de forma contínua, com aumento do número de gêneros, até sua súbita extinção no final do Cretáceo.




Esqueleto completo de um lagarto marinho, exposto no Museu de História Natural Americano, em Nova York.

Do ponto de vista evolutivo, os mosassauros estão classificados no grupo dos lagartos (Squamata), agrupados na "família" (clado) Mosasauridae.

Seu registro mais antigo provém de rochas com 98 milhões de anos e os mais recentes são encontrados em depósitos com 66 milhões de anos.

As formas mais próximas desses vertebrados marinhos nos dias de hoje são os lagartos-monitores, animais de hábitos terrestres que têm o dragão-de-komodo como seu representante mais famoso. No entanto, os mosassauros tinham feições bem distintas das desses animais.





Detalhe do crânio de um Mosasaurus, em exposição no Museu de História Natural Americano, em Nova York.



De forma geral, a aparência desses répteis marinhos pode ser exemplificada pelo Taniwhasaurus antarcticus, encontrado na ilha James Ross, na península Antártica: crânio alongado, arcadas dentárias possantes e dentes robustos.

O corpo também era alongado, com as mãos e os pés transformados em nadadeiras, cuja função principal era a de guiar o animal na água.

A propulsão para o nado era dada sobretudo pela enorme cauda, de modo semelhante ao que ocorre com os crocodilos e jacarés.

Tipicamente, os mosassauros atingiam de 3 a 6 metros de comprimento, mas existiam formas gigantescas, que chegavam quase a 20 metros do focinho à ponta da cauda.



Da expansão à extinção


Em seu estudo, Marcus Ross fez um levantamento de todas as ocorrências de mosassauros no mundo. São exatamente 1.805 exemplares registrados até o momento, classificados em aproximadamente 20 gêneros.

Desde a primeira forma registrada (Dallasaurus) no Cenomaniano (há 98 milhões de anos), houve um aumento da diversidade dos mosassauros, sobretudo a partir do Coniaciano (há 89 milhões de anos), até o grupo atingir de 7 a 10 gêneros no final do Maastrichtiano (há 66 milhões de anos).


Dentes de um mosassauro do tipo "cortante" encontrados em depósito do período Cretáceo no Marrocos e expostos no Museu de História Natural Americano, em Nova York.


Esse resultado indica claramente que os lagartos marinhos estavam em expansão em termos de diversidade quando, subitamente, deixaram de existir.


Além disso, Ross demonstrou que, durante a história evolutiva dos mosassauros, esses répteis adquiriram uma maior complexidade dentária.


Dente de Globidens encontrado em rochas do Marrocos (foto: Mike Everhart).


As formas mais primitivas tinham dentes comparativamente largos e comprimidos lateralmente, caracterizados como do tipo "cortante" (veja ao lado a imagem do exemplar de Marrocos). Com essa dentição, acredita-se que esses animais se alimentavam de presas como peixes.

Em seguida, houve uma diversificação e surgiram espécies com dentição mais especializada, como as do gênero Globidens, que tinham dentes mais curtos e robustos, possivelmente para uma dieta baseada em presas com partes mais duras, tais como conchas e outros invertebrados.

Por último, surgiram os mosassauros com dentes mais alongados e pontudos, que possivelmente eram mais generalistas e se alimentavam tanto de peixes como de invertebrados.


O interessante desse estudo é constatar que, no topo do período Cretáceo (mais especificamente no Maastrichtiano), coexistiam mosassauros com todas essas variações dentárias, o que demonstra que o grupo estava em pleno desenvolvimento, ao contrário de outros grupos de répteis, como os dinossauros e os pterossauros, que se encontravam em declínio.

No entanto, ao final do Cretáceo, os mosassauros se extinguiram, deixando ainda mais enigmática a natureza e o motivo do seu desaparecimento.




Dente de mosassauro encontrado em Pernambuco, nordeste do Brasil, e depositado na Universidade Federal de Pernambuco.

No Brasil, também foram encontrados restos de mosassauros – infelizmente, limitados a dentes e algumas poucas vértebras.

Seguramente, com a continuidade da pesquisa, esqueletos completos serão encontrados, sobretudo no nordeste do país (mais especificamente em Pernambuco e Sergipe).

Esses registros poderão fornecer mais dados a respeito desse fantástico grupo de animais que outrora caçava pela costa brasileira, a exemplo do que os tubarões fazem nos dias de hoje.



Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
06/10/2009


Fonte: Ciência Hoje Online/arquivosdoinsolito
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