Zumbis e Voodoo

Zumbi de Hollywood
No Haiti, na época do ditador François Duvalier, o Papa Doc, que presidiu o país com mão de ferro de 1957 a 1971, o governo, numa manobra psicológica inteligente, aproveitando o tradicional temor popular pela magia e os zumbis, espalhou o boato de que Duvalier era um houngan e sua esposa Simone uma mambu, dois poderosos sacerdotes da religião Vodu ou Sèvis Gine (Serviço Africano). Ainda segundo o boato, também mantinham sob o seu poder centenas de zumbis, ou “mortos ambulantes”, muitos deles de sua guarda pessoal, a milícia denominada Tonton Macoute, conhecida por sua brutalidade.
Milicianos Tonton-Macoute
Seu filho o ditador Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, herdou o governo e a fama, tiranizando o país até 1986, quando renunciou ao cargo de presidente e exilou-se na França.
Realmente não há provas de que os Duvalier fossem houngans, mas certamente eram devotos do vodu. Alguns de seus ministros eram Bokors, feiticeiros genuínos.
O vodu é uma antiga religião originária de Benin na costa ocidental africana e é um importante elemento de coesão social em alguns países africanos como Togo e Gana.
Têm suas raízes na crença do povo Fon-Ewe e na atualidade conta com mais de quarenta milhões de seguidores sendo a crença majoritária em Benin e no Haiti.

No Haiti, a religião foi oficializada em 2003, alcançando o mesmo status das religiões cristãs. Não se trata do estereótipo comumente aceito de sacrifícios de sangue, bonecas espetadas, maldições e “mortos-vivos”.
É uma religião animista perfeitamente estruturada e complexa, que se baseia no culto aos antepassados, que muitas vezes são elevados à condição de divindades, e a natureza, combinando elementos do cristianismo como velas, batismo, orações e o sinal da cruz.
Os cultos são presididos por sacerdotes denominados houngan (masculino), mambu (feminino) e hounsis (iniciados assistentes).
Possui um Deus principal, conhecido como Bondje ou Bon Dieu (Mawu na religião Fon e Ewe), espíritos voduns chamados de Loa e Iwa, sincretizados com os santos do catolicismo, os eguns, mortos ou ancestrais, um sistema divinatório regido por Fá, o vodun do destino e da adivinhação, semelhante ao Orixá iorubano feminino Ifá, popular no Brasil como a condutora do jogo de búzios.
Na África ocidental, as curas medicinais, os contra-feitiços, e previsões, são responsabilidades dos Inyangas, ou curandeiros, papel geralmente cumprido por mulheres, e correlacionado nas Américas as ialorixás, babalorixás (sacerdotes de Orixás) e aos babalaôs (sacerdotes do culto de Ifá) do Candomblé. 
O termo vodu é uma transliteração do francês “vous tous” que significa “todos vocês”, mas em sua origem poderia também significar “espíritos” e derivaria do termo vodun do idioma Dahomey.
Nos séculos XVI e XVII o comércio de escravos tornou-se para os europeus e muitos reinos africanos a atividade mais lucrativa.
No Daomé o rei Agadjá (1716-1740) e seus descendentes empenharam-se em uma guerra com os reinos vizinhos e conquistaram o reino de Benin, transformando sua capital Ouidáh de onde se originara a dinastia, no maior mercado de escravos da África.
Tornaram-se vassalos do poderoso reino de Oiá que praticamente detinha o monopólio da escravidão. Os prisioneiros de guerra das várias etnias dominadas, principalmente os iorubás, eram vendidos ou trocados por produtos manufaturados e armas.
As guerras tribais foram encorajadas pelos europeus, que ao longo da Costa do Esqueleto construíram diversas fortalezas para o mercado em expansão no Caribe e nas Américas. A religião desse modo se tornou o elemento unificador entre os prisioneiros, o fator comum que os unia na busca pela liberdade.
No Brasil, escravos sudaneses de fé islâmica, das etnias hauçá e nagô que sabiam ler e escrever em árabe, muitos deles mais cultos que seus senhores, organizaram a revolta Malê em Salvador no estado da Bahia em 1835.
Nessa ocasião os revoltosos propunham o fim da religião católica imposta pelos escravocratas, o assassinato de brancos e mulatos, e a implantação de uma monarquia islâmica com a escravização de todos os não muçulmanos. O golpe de estado fracassou e a rebelião foi contida violentamente pelo governo. 
A proposta malê era semelhante à ocorrida no Haiti em 1804 quando foi declarada a independência.
Jean Jacques Dessalines foi eleito governador vitalício, mas não satisfeito coroou-se imperador como o fez Napoleão Bonaparte no mesmo ano.
Dessalines perseguiu o catolicismo e ordenou a execução de toda a população branca, mas devido a sua tirania foi assassinado por seu próprio povo em 1806.
A tradição vodu dos fetiches e deuses, rituais e herbolários foi preservada em todas as comunidades de escravos nas Américas com vários nomes: Hoodoo nos Estados Unidos e sua variante de Nova Órleans o Voodoo, Vodun Jeje e Candomblé no Brasil, Santeria ou Regla de Ocha e La Regla Arara em Cuba, Porto Rico, Trinidad e São Domingos, Palería na Venezuela.
Nova Órleans nos Estados Unidos foi o berço da mais famosa rainha do voodoo no século 19, Marie Laveau, que viveu de 1794 a 1881.
Marie Laveau
Túmulo de Marie Laveau

Iniciada por um lendário feiticeiro, o dr. John, que lhe ensinou a preparar o feitiço gris-gris, Marie em sua época foi considerada a mais poderosa mambu ou feiticeira da louisiana, e até hoje seus adeptos acreditam em seu poder, e utilizam sua sepultura no cemitério Saint Louis, para a prática de cerimônias e depositório de oferendas mágicas.
Marie freqüentava a alta sociedade sulista, e como boa católica, colaborava com as obras de caridade do pároco da catedral de Saint Louis, o padre Antoine, que inclusive, permitia a realização de cerimônias Voodoo no altar mor da catedral. 
A prática das bonecas espetadas como magia analógica, é uma característica do Voodoo da Louisiana, e não tem suas origens no Vodu haitiano, mas sim no método mágico de correspondência analógica europeu, e tornou-se associada ao Vodu tradicional devido à imaginação dos roteiristas de Hollywood.
Principalmente no interior do Haiti, nas comunidades Maroons, a religião vodu e o islamismo criaram raízes, apesar da repressão católica. Suas práticas e ritualísticas pouco diferiam da original africana apesar da influência indígena e européia.
Em 1740 um houngan de origem muçulmana, François Macandal, liderou uma rebelião contra os senhores franceses planejada durante as cerimônias vodu, incentivando os praticantes do culto a envenenarem os poços das plantações para gerar o pânico.
A guerrilha e o terror duraram 18 anos, até que em 1758 Macandal foi preso e sentenciado à morte na fogueira. Porém, antes da fogueira ser acesa, amaldiçoou seus captores e profetizou que nenhuma autoridade branca poderia matá-lo.


Durante a execução, as chamas tomaram seu corpo e a estaca que o prendia. Suas correntes com o fogo se soltaram e caíram ao chão. Uma lenda foi criada e seus discípulos passaram a acreditar que Macandal se transformara em um guédé, espírito vodu.
A influência do vodu ficou mais forte e a autoridade das igrejas cristãs foi abalada irremediavelmente. Os católicos lideraram uma campanha para estigmatizar o vodu como magia negra e malévola, mas a rebelião dos escravos Maroons renegados ganhou força e ímpeto.
Desse modo o vodu passou a ser usado para amedrontar os senhores brancos e a coagir os escravos das plantações que não aderiram aos insurgentes e que temiam os espíritos invocados, como os loupgarous, vampiros que sugam o sangue de crianças e o baron samedi (barão sábado) ou, maman brigit, senhores do submundo, as primeiras pessoas a serem enterradas em um cemitério de igreja, e que se transformam em guédés, os espíritos dos mortos guardiões dos cemitérios.
As revoltas se sucederam até 1º de janeiro de 1804 quando foi declarada a independência do país.
Durante anos os zumbis foram considerados folclore, meros produtos da imaginação supersticiosa do povo haitiano, uma lenda para amedrontar os ingênuos, explorada exaustivamente pelos diretores de filmes b.
Zumbis seriam pessoas que tiveram a alma menor ou ti bon ange (pequeno anjo bom) roubada por um bokor ou feiticeiro no momento da morte ou logo após a morte. Essa alma menor, associada à penumbra e a consciência, convive com a gros bon ange (grande anjo bom) a alma que se manifesta no hálito e na sombra de cada um.

As duas habitam o corps cadavre (corpo mortal). O bokor, feiticeiro da magia negra, conservaria a alma do morto em uma garrafa e passaria a ter controle absoluto sob o corpo da vitima, agora um autômato, “morto-vivo”.

Mas por trás da história há uma realidade terrível que combina preconceito, escravidão, magia e controle social. Os bokors haitianos, à maneira dos sangomas, feiticeiros nigerianos e sul africanos que realizam os feitiços muti com ervas 
com esse propósito,conhecem muito bem as qualidades tóxicas e curativas inerentes a certas plantas e animais.

Um peixe em especial, da classe dos tetraodontiformes a qual pertence o peixe fugu japonês e o baiacu é de grande utilidade. Conhecida como droga dos zumbis, a Tetrodotoxina ou TTX é um dos venenos mais potentes conhecidos.
Baiacu
Sapo Atelopus

Essa neurotoxina, produzida por bactérias nas gônadas e outros tecidos viscerais dos peixes também é encontrada na pele de animais como salamandras, no sapo Atelopus da Costa Rica, em algumas espécies de polvo e no caranguejo xantídeo.

É um poderoso anestésico natural que pode matar em poucas horas ou paralisar a vítima. A pessoa envenenada fica em um estado semelhante à catalepsia, e consciente de tudo o que acontece ao seu redor.

A característica anestésica ímpar do veneno esta sendo estudada por laboratórios farmacêuticos americanos para um uso futuro na medicina e na exploração espacial aonde seria necessária a hibernação de astronautas em viagens prolongadas.

A toxina é habilmente manipulada pelos houngans que descobriram a fórmula mágica para a criação de mortos-vivos. Segundo especialistas, os zumbis são o produto da combinação de uma intensa pressão psicológica e de uma farmacopéia extravagante.

Geralmente a vítima do feitiço foi condenada socialmente, pode ser um doente mental ou alguém cujo comportamento não corresponde ao esperado.
Vítima real de um bokor

A família, ou vizinhos mais chegados, coloca em seus alimentos doses de TTX e outros narcóticos prescritos pelo feiticeiro, que aumentam durante o “tratamento” até o dia de sua “morte”. Tempos depois a vitima “morre” e é sepultada normalmente com todas ashonras.

De madrugada o Bokor vai ao cemitério e abre a sepultura obrigando a pessoa a ingerir o antídoto, uma pasta feita da planta psicoativa conhecida como “pepino dos zumbis”.

O novo “morto-vivo” acorda, mas em um transe semelhante à hipnose. Devido às seqüelas causadas pela falta de oxigenação cerebral e o estresse pós-traumático o individuo nunca mais será o mesmo.

Trabalhará e cumprirá ordens passivamente até morrer, e quando considerado incapaz ou tendo sofrido o suficiente é abandonado à própria sorte.

O problema no Haiti foi tão grave, que existe inclusive uma legislação específica para punir como tentativa de homicídio pessoas que utilizem substâncias para envenenar e reduzir alguém a um estado letárgico. Se após o letargo ocorrer um sepultamento o causador será acusado de homicídio doloso.



Obs: Em 2000 na Nigéria, membros do Congresso Odua de Povos prenderam em flagrante na cidade de Lagos, o nigeriano Yekini Ifalowo, pelo rapto de mais de cem jovens para suprir assassinatos rituais. Partes dos corpos (olhos, mamas, órgãos genitais) eram usados em feitiços muti, amuletos e tratamentos por curandeiros. Crimes semelhantes foram registrados na França e Espanha. Uma modalidade da santeria denominada Palo Mayombe, utiliza partes de corpos humanos para aprisionar espíritos.
 Uma grande parte dos 11 milhões de cubanos pratica a santería iorubá. Em Cuba é conhecida uma seita relacionada a santeria conhecida como Abakuá que venera a divindade Abassi. A seita segundo a lenda, utiliza um tambor sagrado confeccionado com pele humana denominado Ekwé, que necessita ser recado com sangue humano freqüentemente, e seria responsável por dezenas de assassinatos de mulheres e crianças.


Share on Google Plus

About Wesley Fernandes

0 comentários:

Postar um comentário