A Profecia da Grande Cheia

Sexta-feira. Dezoito de junho. Passa das onze horas da noite. Converso, reservadamente, sobre os problemas do dia a dia e as pessoas que se comportam como najas cuspideiras e dragões de Komodo.

O telefone toca. De Viçosa, vozes assustadas informam que o rio Paraíba está invadindo a cidade. Fiquei surpreso com a estranha notícia, mas como desconhecia a gravidade do que ocorria, apenas disse que tudo ia voltar ao normal.

Nos dias que se seguiram a imprensa mostrou a alarmante devastação causada pelo mini-dilúvio.

A chuva diminui, a água baixou e a enchente passou, mas ficaram as incríveis histórias: apesar de Viçosa não ter virado “mar e céu”, disseram que quatro meses antes, certa senhora ficou apavorada porque viu em sua casa uma criatura de aspecto monstruoso: possuía dois chifres na cabeça, cabelo arrepiado, olhos de fogo, orelhas pontiagudas, asas de morcego, garras nas mãos, casco de cavalo no lugar dos pés, pernas cobertas com espessos pelos e usava uma espécie de capa presa através do pescoço, tórax e cintura (Fig. 01).

Fig. 01: Uma das manifestações do “Homem-Mariposa”? 


Seria uma das maneiras do “Homem-Mariposa” se manifestar? Quem viu “A Última Profecia” sabe que ele existe e que o filme foi baseado em fatos reais e não em ficção ou estórias da carochinha.

Depois falaram do estrago na cidade de Paulo Jacinto e na intocabilidade da “Vila Franciscano” que apesar de ficar em local mais atingível, quase nada lhe aconteceu. Eis o paradoxo: quem devia ser socorrido, foi quem socorreu! Como explicar?

Através do natural – aí, o leito do Paraíba é mais profundo e largo – ou do sobrenatural – a proteção oriunda da santidade de Frei Damião impediu que ocorressem maiores danos – já que a Vila era um dos locais onde ele repousava?

Alfim contaram que o verdadeiro motivo da maior e mais falada cheia do Paraíba – em 1948 – foi para que as águas levassem “para o mar sagrado” certa pessoa que, por castigo divino, transformara-se numa criatura demoníaca (Fig.02).

Fig. 02: O ser demoníaco 
Foi condenado por ter feito mal a uma adolescente dentro da Igreja do Rosário (Fotos 01 e 02).

Foto 01: Vista geral da Igreja do Rosário


Foto 02: Vista da Capela e de parte da Igreja do Rosário

Seu hediondo crime manchou o coro da pequena  igreja com uma gota de sangue. Lá estive para verificar se ainda restava algum vestígio do local onde tudo ocorreu. Nada encontrei. Onde outrora ficava o coro (Fotos 03 e 04), só há recentes marcas de conserto (reboco). 

Foto 03: Não há nem marcas de onde diziam ficava o coro 

Foto 04: Note-se o recente reboco 
Estas marcas se estendem por quase todo seu interior, inclusive nas paredes laterais e na que fica por trás do altar cuja cruz que o encima é quem sustenta o velho forro (Fotos 05e 06). 

Foto 05: Há reboco nas paredes laterais e por trás do altar 

Foto 06: A cruz que encima o altar sustenta o velho forro 
No espaço lateral esquerdo, encontram-se duas sepulturas: uma de Manoel Soares de Vasconcelos – que nasceu em 1830 e morreu em 1915 -e a outra de Antônio Pinto de Almeida, cujo nascimento se deu em 1837 e o falecimento em 1897 (Fotos 07 e 08). 

Foto 07: Lápide de Manuel Soares de Vasconcellos
*5 – 4 -1830+20 – 4 – 1915 

Foto 08: Lápide de Antonio Pinto de Almeida
*1837 + 21 – 7 – 1897 
Mesmo acorrentado numa potente cama de ferro, amedrontava a todos com seus luciferinos gritos. Para conte-lo e diminuir a tensão dos habitantes foi necessário que as autoridades religiosas solicitassem com a máxima urgência uma comissão especializada em rituais que servissem para “acalmar” criaturas desta espécie (Fig. 03). 

Fig. 03: Religiosos realizam o ritual para acalmar a fera Realizado o poderoso e correto ritual, acorrentaram-no e colocaram-no numa jaula confeccionada de prata, benta por uma pura e poderosa autoridade religiosa e devidamente selada (Fig.04). 

Fig. 04: Dominada pelas orações a fera é conduzida para a jaula Na hora apropriada, à noite, a jaula foi colocada sobre um carro de boi guiado pela luz de tochas sagradas constituídas por ervas cujo perfume tinha o poder de afastar os mais diversos e terríveis tipos de demônios levadas pelos religiosos em constantes, fervorosas e poderosas preces (Fig. 05). 

Fig. 05: A tenebrosa criatura segue para seu destino 
O carro de boi foi conduzido, no mais absoluto sigilo e as pressas, para a antiga ponte (Fig. 06). 

Fig. 06: O carro de boi para sobre a velha ponte 
Na ponte a jaula foi, imediatamente, jogada nas turbulentas e revoltadas águas do rio Paraíba (Fig. 07) que rugiam de pavor, tristeza e repugnância – porque não desejavam receber um dos filhos de Satã -para que transportassem para o “mar sagrado” aquele monstruoso e demoníaco ser. 

Fig. 07: Um dos filhos de Satã é jogado no rio Paraíba 
Dizem que quando Frei Damião soube do luciferino ato cometido dentro da Igreja, teria profetizado: “o que com sangue foi maculado, com uma enchente será lavado”. 

Na Igreja do Rosário não existe coro – estranho – e nem mesmo a marca de onde outrora teria existido. Se existiu estaria há mais de sete metros acima da Praça Apolinário Rebelo. Que informem os topógrafos: o que sobraria da cidade se a suposta profecia se concretizasse? Num alfarrábio de 1919, encontrei esta passagem que, acredito, tenha relação com o acontecido:

... eis em conjunto esta Capela que já foi falada, muito longe, pela violência sofrida na sua integridade moral e na sua inviolabilidade sagrada” (1).

O texto acima foi escrito em 1919. Se foi escrito em 1919, como, então, ele pode se referir a um fato que só iria ocorrer quase trinta anos depois, ou seja, em 1948?

Claro está que se sua referência é a algo monstruoso que atingiu a “integridade moral” e a “inviolabilidade sagrada” da Igreja do Rosário isto deve ter acontecido antes de 1919.

Em assim sendo, a cheia que levou um dos filhos de Satã para o “mar sagrado” não foi a de 1948 e seu “verdadeiro motivo”, diferentemente do que dizem, não foi levar um dos filhos de Satã para o “mar sagrado”, mas outro completamente diferente.

Ressalto, porém, que isto não significa a desmistificação das antigas crenças, ditos e a conseqüente resolução do problema, pelo contrário, esta observação só apimenta ainda mais o mistério.

Disse William Shakespeare:

Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia” (2).

Estou de acordo.

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS
Professor da UFAL
15.07.2010 


CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES 

1.  As fotos pertencem ao arquivo do autor;
2. Todos os desenhos foram elaborados pelo estudante Erivaldo Macário de Souza.

BIBLIOGRAFIA 

1. VILELA, Manoel Brandão. Almanach de Viçosa. Viçosa, Typographia Econômica, 1919, pp. 229/230.
2. SHAKESPEARE, William. HAMLET.


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